Por trás da guerra às drogas

Crítica

Longa-metragem independente de Rodrigo Mac Niven, “Cortina de Fumaça”, que está em cartaz nos cinemas do país, discute a questão da droga de forma lógica e histórica.

Luiza Judice (luizajudice@gmail.com)

“Algum dia, quando a descriminalização das drogas for uma realidade, os historiadores olharão pra trás e sentirão o mesmo arrepio que hoje nos produz a inquisição”. É com essa frase do juiz penalista Javier Martinez Lázaro, de Madri (Espanha), que começa de fato o documentário Cortina de Fumaça (2010), o primeiro longa-metragem do cineasta brasileiro Rodrigo Mac Niven. Estreado em setembro do ano passado no Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro, o filme completou um ano e, com a data, foi lançado oficialmente no dia 02 desse mês em cinemas das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.

Cortina de Fumaça, assim como a recém-lançada superprodução também nacional Quebrando o Tabu (2011), trata da polêmica questão da (des)criminalização das drogas e dos mitos que giram em torno do assunto, mas foge do clichê ao não colocar a questão do tráfico em primeiro plano, como acontece na maioria das discussões sobre o tema. O jovem diretor carioca dá atenção especial aos preconceitos provenientes da desinformação e da falta de embasamento científico que marca a política de drogas, em especial da cannabis. Para tal, são reunidos depoimentos de sociólogos, historiadores, psiquiatras, neurocientistas, profissionais de direito penal, criminalistas e policiais de vários países, que defendem de forma consistente o argumento do filme de que o uso da maconha é muito menos danoso ao indivíduo e à sociedade do que diversas substâncias lícitas consumidas de forma banal, e que a guerra às drogas é falha e possui motivações políticas duvidosas.

O documentário apresenta uma sequência lógica que nos ajuda absorver e analisar as questões exploradas. É feito, em primeiro momento, um resgate histórico da antiga relação dos seres humanos com as substâncias que alteram o estado de consciência – passando, inclusive, pelo caráter sagrado que elas tinham em determinadas sociedades – até os dias de hoje, marcados pelo grande consumo mundial de drogas legais, como o álcool, tabaco, analgésicos e antidepressivos. O autor utiliza o exemplo dessas substâncias como parâmetro para medição dos danos físicos e sociais reais do uso da maconha, e mostra um aspecto desconhecido pelo grande público: o valor econômico que existe em torno do comércio sustentável de produtos derivados da cannabis, como alimentos, tecidos, cremes hidratantes, óleos e tintas obtidas da resina do cânhamo.

Enquanto mitos são derrubados em meio às declarações de cientistas e médicos especialistas, como o de que o consumo da maconha destrói neurônios ou causa forte dependência física e psicológica, os efeitos benéficos do uso da erva são mostrados sem o menor conteúdo apologético, embasados em pesquisas científicas que resultaram em mudanças de lei em diversos países da Europa e América do Norte. Essa abordagem oferece recursos para uma discussão mais aprofundada sobre as raízes da “demonização” que existe acerca de determinadas substâncias. Entre elas, as inconsistências históricas das políticas de combate às drogas ficam claras, sendo quase impossível não compreender de que forma elas foram usadas para marginalizar e discriminar minorias, criminalizar a pobreza e promover um “apertheid social”, cujo resultado, hoje, é o advento do tráfico, causa de verdadeira guerra civil mascarada.

A questão tratada no final do longa é justamente a mais discutida nos dias de hoje – a relação entre a ilegalidade da maconha, a violência e o tráfico –, que culmina na seguinte pergunta: se o consumo e a produção de drogas só aumentam, para que serve, então, a política criminal? Essa questão não é exatamente respondida pelo filme, mas ele nos incita a formular uma resposta interna que, feliz ou infelizmente, parece muito óbvia.

A abordagem diferenciada do diretor e a escolha das fontes, que tornam o ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso e o ex-Deputado Federal Fernando Gabeira meros coadjuvantes no documentário, fazem de Cortina de Fumaça um filme a ser visto. Mac Niven inicia a obra afirmando a importância do “debate” sobre as leis proibicionistas vigentes, mas esse debate, na realidade, não existe. Em nenhum momento é mostrado o lado contrário à descriminalização de drogas, mas isso, convenhamos, não se faz necessário para uma sociedade que está há décadas sendo bombardeada apenas por pré-conceitos e argumentos religiosos e morais sobre esse tema.

Leia aqui entrevista com o diretor e assista abaixo ao trailer de Cortina de Fumaça:

Um pensamento sobre “Por trás da guerra às drogas

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